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O que é o fascismo?

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Foto: Gabrielle Pires

    Nas últimas semanas uma onda antifascista surgiu em resposta aos protestos pró-governo Bolsonaro. Enquanto apoiadores do presidente pediam pela volta da ditadura militar e o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), grupos contrários se organizaram para defender a democracia e a manutenção das instituições democráticas, além da liberdade.

     Entre as lutas do grupo intitulado “antifascistas”, que ocuparam em grande número as ruas do país, estão a defesa pela vida – uma vez que o governo tenta minimizar as mais de 50 mil mortes causadas pela pandemia e mais de um milhão de infectados pelo coronavírus- a manutenção dos empregos, a liberdade de imprensa, a luta contra o racismo e contra o fascismo. Mas afinal de contas, o que é fascismo? Por que o governo federal vem sendo chamado de fascista?

    O SindisprevRS conversou com o Professor de História Jatair Martins Costa – o Jata como prefere ser chamado- para entender melhor essa expressão e quais são as consequências provocadas pelo fascismo.

 

SINDISPREVRS – O que é o fascismo, quando surgiu, onde, como se estabeleceu?

JATA – O fascismo é um método de ação do sistema capitalista, baseado na prática da violência e a instauração do medo.

Surgiu na Itália em 1921, após a primeira Guerra Mundial. As condições econômicas e sociais da Itália no pós-guerra favoreceram o desenvolvimento do fascismo.

Desemprego, fome, miséria, economia em declínio. Enquanto de um lado o PSI (Partido Socialista Italiano) e – principalmente – o PCI (Partido Comunista Italiano), fundado e liderado por Gramsci, defendiam e apoiavam as greves e a instauração de um regime sob a direção da classe trabalhadora, a burguesia aliou-se aos fascistas liderados por Benito Mussolini, permitindo assim a instauração de um regime de extrema violência na Itália.

SINDISPREVRS – Quem são os fascistas mais famosos na história?

JATA – Benito Mussolini na Itália, Adolf Hitler na Alemanha e General Franco na Espanha.

SINDISPREVRS – Quais são as característica de um governo fascista, elas estão presentes no atual governo?

JATA – O fascismo é caracterizado por extrema violência, xenofobismo, racismo, conservadorismo, anticomunismo, totalitarismo (o Estado está acima de tudo), nacionalista, patriótico, irracionalista e de culto ao líder(mito).

O governo brasileiro atual, apresenta todas essas características. Talvez, a exceção seja de "ainda' não ter consolidado um Estado totalitário.

SINDISPREVRS – Há semelhança entre o movimento fascista original e o atual? Temos um movimento declaradamente fascista?

JATA – Como já disse, o governo brasileiro apresenta muita semelhança com o fascismo original. Forte apelo patriótico, conservadorismo cristão, a construção da figura do líder forte, a tentativa de criar a figura do mito, cerceamento da imprensa, permanente ameaça à democracia (fechamento do STF e Congresso). Mesmo que, a priori , sejam contextos históricos distintos, há um elemento comum que é a recessão (retração econômica, desemprego crescente, que geram aumento do empobrecimento dos trabalhadores e da criminalidade). Mas, para se chegar a um regime fascista ainda falta ao presidente e seu governo, apoio popular. Resta saber se terão a capacidade de amplificar o seu discurso de ódio e aumentar os percentuais de aprovação.

SINDISPREVRS – O Fascismo é de direita ou de esquerda?

JATA – O fascismo é um regime de extrema direita caracterizado pelo uso de intensa violência e financiado por capitalistas.

SINDISPREVRS – Como o mundo combateu o fascismo? Como tem sido a organização atual da luta?

JATA – As forças de esquerda (anarquistas, socialistas e comunistas) uniram-se para combater o fascismo e formar a resistência às forças de ocupação fascista/nazista durante a segunda guerra mundial, assim como na guerra civil espanhola.

Na esfera mundial, nações capitalistas uniram-se aos comunistas para derrotar o nazifascismo. Atualmente, no Brasil, há um conjunto de forças democráticas formando a resistência e ocupando as ruas em reação ao avanço do fascismo. Exemplos claros foram as manifestações antifascistas e antiracistas que ocuparam as ruas das principais cidades brasileiras nos últimos fins de semanas, mobilizando milhares de lutadores (estudantes, torcidas organizadas antifascistas de times de futebo, trabalhadores, professores, movimentos sociais).

SINDISPREVRS – Nossa democracia está em risco?

JATA – Qualquer governo com o perfil do atual governo brasileiro coloca a democracia em risco. Desde a redemocratização do Brasil nunca estivemos em situação de destruição da democracia como no momento atual.

SINDISPREVRS – As manifestações atuais, em sua opinião, são espontâneas e legítimas da população ou são insufladas por grupos políticos-partidários?

JATA – Há dois tipos de manifestações em curso. De um lado as manifestações de cunho fascista em apoio ao governo e ao presidente. Esses manifestantes se identificam com o discurso racista, homofóbico, machista, anticomunista. Caracterizam-se por profundo desconhecimento histórico e facilmente se deixam levar pelas fake news. São facilmente cooptados pelo discurso fascista do presidente e dos partidos de extrema direita. Representam o que há de mais abjeto, irracional e desumano da sociedade brasileira. Conceitos forjados em séculos de escravismo e genocídio praticado contra os povos originais e os povos africanos arrancados da África e aqui escravizados.

Foram séculos de trabalho forçado, torturas, maus tratos, estupros e assassinatos. Primeiro praticados pelos conquistadores europeus brancos e cristãos, depois pelos seus descendentes que constituíram as elites aristocráticas brasileiras.

De outro lado, as manifestações de reação e resistência ao avanço do fascismo no país. Estas forças estão identificadas com a história de luta dos povos escravizados e todos os oprimidos. Aqui está a defesa do meio ambiente, a manutenção dos direitos da classe trabalhadora, a defesa intransigente dos direitos humanos e da democracia. Aqui estão, novamente, unidos anarquistas, socialistas, comunistas, movimentos sociais, estudantes, professores, trabalhadores, e todos aqueles brasileiros que não tem medo de fascistas, de milicianos, e que desejam dar um basta ao genocídio praticado contra os jovens negros das periferias que lutam pelo direito à moradia, à saúde pública, educação pública e de qualidade, emprego e salário decentes para todos os brasileiros. São embalados e se identificam com lutas como a Guerra de Canudos, a resistência do Quilombo de Palmares e com líderes históricos como Zumbi, João Cândido, Chico Mendes, Marielle e tantos outros.

 

Jatair Martins Costa é Licenciado em História pela Ufrgs, Pós graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina e servidor público do estado com 17 anos de experiência na educação pública.

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