O SindisprevRS – Sindicato dos Trabalhadores Federais da Saúde, Trabalho e Previdência Social do Rio Grande do Sul manifesta sua profunda indignação com as declarações do deputado federal Paulo Pimenta, que, ao afirmar que “o INSS é uma vergonha e eu não vou ficar calado”, opta por responsabilizar os servidores públicos pelo caos estrutural que há décadas atinge a Previdência Social, desconsiderando fatos objetivos e a realidade vivida diariamente dentro do Instituto.
O atendimento no INSS enfrenta, de fato, graves problemas. No entanto, é inadmissível que essa realidade seja tratada de forma simplista, com afirmações como a de que não há falta de pessoal, mas sim resistência ao trabalho presencial. Essa narrativa ignora dados concretos: o INSS perdeu mais da metade de sua força de trabalho nas últimas décadas. Já fomos quase 80 mil servidores; hoje somos menos de 19 mil para atender uma demanda crescente, complexa e socialmente sensível. A falta de pessoal é real, documentada e reconhecida, e nenhum discurso a apaga.
É incorreto afirmar que a simples imposição do trabalho totalmente presencial resolveria os problemas do INSS. A realidade é que os sistemas utilizados são os mesmos, independentemente do regime de trabalho, e o Instituto enfrenta uma estrutura profundamente precária, tanto no parque de informática quanto nas condições prediais e de mobiliário das agências. Grande parte da análise e do reconhecimento de direitos previdenciários é realizada por servidores em teletrabalho, que cumprem de forma obrigatória metas no mínimo 30% superiores às dos trabalhadores presenciais, sob monitoramento permanente, mesmo diante das constantes quedas, lentidões e indisponibilidades dos sistemas. Penalizar esses trabalhadores não resolve o problema — é atacar justamente quem mantém o INSS funcionando.
Atualmente, o Instituto acumula cerca de 3 milhões de benefícios pendentes, além de um grave déficit no atendimento à população, o que evidencia que o quadro de pessoal é insuficiente tanto para enfrentar a fila quanto para garantir atendimento digno. Esse volume represado precisa ser compreendido em conjunto com outro dado fundamental: o INSS recebe mais de 1 milhão de novos requerimentos todos os meses, que são analisados, corrigidos, ajustados e concluídos pelos servidores, mesmo diante de um cenário permanente de precarização. Cada episódio de lentidão, instabilidade ou indisponibilidade dos sistemas tem impacto direto e imediato na fila de benefícios, ampliando o represamento e prejudicando tanto a população quanto o trabalho técnico dos servidores. A realidade é objetiva: faltam servidores no INSS, e qualquer melhora estrutural passa, necessariamente, pela realização de novos concursos públicos, e não pela criminalização ou precarização do trabalho dos seus servidores.
Também não corresponde à realidade a afirmação de que cerca de “70% dos funcionários do instituto seguem trabalhando remotamente”. Dados oficiais do próprio INSS indicam que o percentual médio de servidores em teletrabalho gira em torno de 40%, número muito distante do apresentado pelo deputado. A distorção desses dados contribui para desinformar a sociedade e reforçar uma narrativa que tenta transferir aos servidores a responsabilidade por problemas que são estruturais, históricos e amplamente documentados.
Causa ainda mais preocupação a tentativa de associar o teletrabalho à prática de fraudes, insinuando que o home office teria facilitado a ação de criminosos que aplicaram descontos indevidos em benefícios. Essa afirmação é grave, irresponsável e não se sustenta. As fraudes não decorrem do regime de trabalho dos servidores, mas sim de falhas sistêmicas, ausência de fiscalização adequada, fragilidade dos controles institucionais e abandono histórico da gestão pública.
É necessário destacar que, no último grande esquema de fraude contra aposentados e pensionistas do INSS, os cargos estratégicos envolvidos são de gestão e nomeação política, e foi a condução de gestores nomeados politicamente que, ao flexibilizar normas, fragilizar mecanismos de controle e fiscalização, permitiu que associações e instituições financeiras realizassem descontos indevidos diretamente nos benefícios. Esses fatos evidenciam uma falha estrutural de gestão, agravada pela precarização contínua e pela ausência de investimentos no INSS, sendo fundamental afirmar que os servidores que atuam na linha de frente do atendimento e da análise de benefícios não têm qualquer responsabilidade por esses esquemas.
Nesse sentido, a própria CPMI do INSS, atualmente em andamento, vem demonstrando exatamente isso: décadas de negligência do Estado, falta de investimento, ausência de controles eficientes e decisões políticas que enfraqueceram a capacidade de proteção do sistema previdenciário. Transferir essa responsabilidade para os servidores é uma tentativa de desviar o foco das reais causas do problema.
É igualmente ofensiva a afirmação de que o emprego no INSS teria “virado um bico”. Os servidores da Previdência Social atuam com dedicação, responsabilidade técnica e compromisso público, mesmo submetidos à sobrecarga extrema, pressão por metas, adoecimento e exposição a episódios quase diários de violência dentro das agências, resultado da frustração da população diante de um sistema que não funciona — mas não por culpa dos trabalhadores.
O mês de janeiro escancara ainda mais esse problema e já se consolida como um dos períodos mais caóticos para os sistemas do INSS. Além da lentidão constante e das recorrentes indisponibilidades, haverá uma paralisação geral dos sistemas do Instituto, a partir das 19h do dia 27 de janeiro, com retorno previsto apenas para o dia 1º de fevereiro, às 23h, em razão do processo de migração tecnológica do sistema CV3. Essa interrupção afeta diretamente o atendimento nas Agências da Previdência Social, o acesso ao Meu INSS e à Central 135, deixando milhões de segurados sem acesso a direitos básicos e aprofundando um caos que é antigo, previsível e reiteradamente denunciado pelos servidores.
A carreira do Seguro Social nunca se calou. Sempre denunciou o sucateamento do INSS, a falta de concurso público, a precarização das condições de trabalho e os prejuízos impostos à população. Os servidores também sofrem como cidadãos: têm familiares, amigos e conhecidos que dependem do INSS, sentem diretamente os efeitos da demora e da instabilidade e compartilham da indignação social. O SindisprevRS, entidade que representa a categoria no RS, encaminhou denúncia quanto a precarização das condições de trabalho no INSS aqui do estado, ao Ministério Público Federal (processo nº 1.29.000.002435/2025-81) e à Procuradoria Regional do Trabalho da 4ª Região (Notícias de Fato nº 001374.2025.04.000/4, 000314.2025.04.0007/0, 000680.2025.04.000/3, 001453.2025.04.000/3). Os processos se encontram em tramitação.
O INSS não é palco para campanhas eleitorais ou discursos fáceis. Estamos falando de vidas humanas, de direitos sociais e de trabalhadores que levam a sério sua função pública. Diante disso, o SindisprevRS convida o deputado Paulo Pimenta a visitar as Agências da Previdência Social, a acompanhar um dia inteiro de atendimento, a vivenciar as filas, as falhas de sistema, a escassez de servidores, a pressão diária e a realidade concreta de quem mantém o INSS funcionando.
Críticas só são legítimas quando acompanhadas de compromisso com a verdade e com soluções reais. Visto os últimos acontecimentos de atos de violência contra servidores do INSS, uma declaração pública com tom irresponsável, culpabilizando injustamente os servidores, irá incentivar ainda mais um clima hostil contra os trabalhadores.
Ataques vazios aos trabalhadores do INSS não resolvem os problemas do órgão. O que o Instituto precisa é de mais investimento, respeito aos servidores, realização de concursos públicos, sistemas estáveis, segurança nas agências e responsabilidade política real com a Previdência Social.
Deputado Paulo Pimenta, respeite os trabalhadores do INSS.
SindisprevRS
Sindicato dos Trabalhadores Federais da Saúde, Trabalho e Previdência Social do Rio Grande do Sul